Os anos passam…

16 Julho 2018

… mas a vida pouco evolui. Temo-la mais facilitada, é certo, mas na verdade creio que com o passar dos anos a humanidade vai-se perdendo. Refiro-me à humanidade em cada um de nós. Olhamos para o lado unicamente para recolher algum fôlego depois de nos afundarmos no nosso próprio umbigo. É nesse momento que pensamos que, para respirar, e descansar de nós mesmos precisamos olhar para os outros e para aliviar a consciência há que ajudar. E é tão bom ajudar. É tão bonito ajudar. Darmos aos outros um pouco de nós é realmente maravilhoso e há quem faça coisas magníficas. Melhor ainda são aqueles que fazem só porque podem, não apenas para aliviar a consciência. Este desabafo surge no seguimento que alguns momentos reflexivos que tenho tido. Principalmente pelo que vou comprovando nas redes sociais. É aí que mais se nota o tanto que vamos perdendo. O sermos humanos é olharmos para o outro como igual. E somos verdadeiramente todos iguais. Do início ao fim da vida não há absolutamente nada que nos distinga, a não ser os atos e as memórias que podemos eventualmente cá deixar. No fundo, temos todos o mesmo fim. Podemos marcar a diferença no caminho que fazemos, na forma como olhamos para os outros, na forma como interagimos e na forma como temos ou não capacidade de ajudar quem precisa. Causa-me alguma revolta ver diariamente nas redes sociais a necessidade de publicitar a ajuda. O sermos altruístas e humildes, ou não, diz tanto daquilo que somos. Somos tão evoluídos e tão retrógrados ao mesmo tempo. Unimo-nos em prol do bem comum mas (quase) ninguém consegue fazer o bem sem a necessidade de publicar uma foto na net. A virtude interior não está ao alcance de todos, infelizmente. O termos a capacidade de fazer mais e melhor em prol dos outros sem necessidade de o mostrar é uma característica que só está ao alcance de alguns. Mas ainda bem que há quem tenha essa capacidade. Demonstra que ainda há alguma humanidade em alguns de nós. E é tão fácil ter impacto positivo nos outros, sem a necessidade de demonstrar ou sem a expectativa de receber algo em troca. Tornar a vida dos outros melhor e mais fácil é um dom que está ao alcance de todos e é uma das coisas mais maravilhosas que existe, tal como a não necessidade de valorização ou agradecimento.

Cansaço é pouco…

24 Janeiro 2018

…e devia não se notar no corpo.

Devia abandonar-nos, como a alma faz quando morremos e vamos morar nas memórias das pessoas.

Devia sair do corpo e ir viver enclausurado num vértice qualquer para que as pernas não pesassem tanto ou para que no rosto não estivesse desenhada tanta dessa fadiga.

Mas ele é assim…cola-se a nós e retira-nos a vontade de ver o reflexo despertando-nos para uma realidade tão mais funda que as olheiras que emolduram o olhar.

Mas passa…

…o cansaço passa e deixa apenas mais uma marca ou dias que teimam em denunciar-nos muito mais do que idade.

Irra!!

Do amor

4 Janeiro 2018

Às vezes apetece-me escrever uma carta à alma.
Deixar bem claro e por escrito e reconhecido que há sentimentos que ela não deve ter.
Cores que não deve assumir.
Momentos pelos quais não deve passar.
Nas linhas que lhe escreveria tentaria provar-lhe que a vida não está para tristezas, angústias ou dor.
A alma deveria absorver apenas bons momentos, arco-íris de sentimentos, alegrias e outros afins.
É uma perda de tempo e espaço ocuparmos a única coisa que temos só nossa.
A alma é algo que ninguém pode roubar, matar, anular ou comprar, com coisas que mancham a palete de cores que deveria ser a nossa vida.
Quando escrever à minha alma dir-lhe-ei: “Memoriza apenas o que de bom se passa comigo”.
Quem ler a carta que escreverei à minha alma dirá: “Mas é com as coisas más que crescemos”.
Mas onde será que isso está escrito? Em lugar nenhum.
Se vivêssemos apenas de alegrias não seria apenas isso que transmitiríamos uns aos outros?
Não é a alegria contagiante?
O amor quando partilhado não se multiplica no lugar de se dividir?
Sem dúvida que sim.
Memorizar o bom, incentivar o bem, relativizar o menos importante e que não nos faz crescer ou dar cor.
É verdade que crescemos quando já não cabemos em nós e quando rasgamos a pele.
Que esse crescer seja sempre de amor.

Reload.

Para a escrita…

21 Dezembro 2017

…nem sempre há disponibilidade. Muitas vezes disponibilidade mental. Não está em causa haver ou não falta de inspiração. Mas tal como outros, são hábitos que se arrumam. Não sei bem se foi a escrita a fazer parte de mim ou muitas vezes era eu que me refugiava nela para encontrar colo, refúgio, ou até mesmo uma parede para esmurrar. Na verdade, não perco muito tempo a pensar nisso e retomo a ela quando sentir a sua falta. Não tem feito.
Houve tempos em que me angustiava não escrever. Pensava imenso nos dias que iam passando e aos cadernos recorria apenas para limpar o pó. Pensava imenso nisso. No porquê de os manter fechados, a meio. Pensava muito nas razões que me levavam a refugiar-me noutras coisas que raramente me davam mais prazer que aquelas folhas brancas que amava estrear.
Mas este espaço nunca foi um diário. Apesar de ter dias, meses e houve momentos em que até as horas registava. Este espaço foi uma ilha deserta que encontrava no meio do oceano, nem sempre revolto, para descansar os braços e fazer o que me apetecesse.
Aqui, está muito do que se passou comigo, mas está também muito do que não se passou. Em suma, é como tudo, e todos temos momentos em que os sonhos é que nos fazem acreditar em dias melhores, em fases que se ultrapassam, em buracos vazios que tapamos com o nosso corpo ou com a nossa alma. E a vida é tão isso. Altos, baixos, desertos, ilhas, multidões e nuvens escassas. O que importa é seguir rumando sabendo viver com aquilo em que nos tornamos.

Da memória

9 Novembro 2017

O tempo é pouco para tanto. Pudesse uma vida caber numa caixa e tudo era tão mais fácil. Mas não cabe. Comigo tenho, não todos os sonhos do mundo, mas uma vida cheia de sonhos. Muitos deles estão fechados em letras de um caderno ou em forma de bilhete de cinema ou num livro. Porque a memória tantas vezes me falha, consigo imaginar num futuro mais perto do que gostaria os meus filhos a mostrar aos meus netos ou bisnetos algumas letras que eu gostava de juntar e com elas construir memórias de momentos. Principalmente os medos e as etapas complicadas que fizeram de mim tanto daquilo que sou hoje. Mas também os momentos maravilhosos e cheiros de afeto e amor.
A memória é dormente e volátil. Mas tantas vezes é fácil de alcançar quando sinto um determinado cheiro ou um sorriso que sempre esteve à minha espera. E porque, no meu dia-a-dia vejo tanta memória esvaziar de um momento para o outro, temo tanto que um dia possa esquecer tudo aquilo que vivi e principalmente o “para sempre” que estou a hoje a viver. Nada melhor do que escrever ao mesmo tempo que sinto para mais tarde, mesmo que não recorde o que vivi, sinta que fui feliz, fiz alguém feliz, enraizei caracter nos meus filhos e sou muito mais do que a passagem de um tempo de vida.
Somos também muito do que cá deixamos e acho que alguém só morre quando mais ninguém se lembrar de si e o que perdura de nós está mais na nossa mão do que pensamos. E de forma tão simples.

Sonhos a ganhar forma

5 Novembro 2017

Quando, na torre mais alta, o joelho se firma no chão enraizando um sentimento único, e se faz magia, a resposta só podia ser “sim”.

Da luz

23 Outubro 2017

Apetece beijar a luz apenas porque é ela que serve de véu quando a poesia nasce.
Apagada ou a inundar o espaço é indiferente quando se entrega a alma a alguém que tão bem se conhece e no peito onde apetece morar.
As mãos, os lábios e os gestos podem ser infinitos, mas a luz mantém-se imóvel criando cumplicidade com todos os desejos, anelos e palavras.
Tenho vontade de fazer dela um altar para a adorar em todos os momentos do meu dia ou da noite. Seja a luz do Sol, da Lua, dos candeeiros ou das velas que salpicam tímidas alguns cantos de casa. O desfazer dos vértices e das linhas paralelas é único e a descoberta e o desbravar de caminhos que se pensava já conhecidos é iluminador dos dias que se avizinham.
A luz é única e estende-se por todos os momentos fazendo deles algo ímpar.
Quando se apaga e fica apenas a penumbra, à memória vem o sorriso ou o olhar que reflete um infindável mundo novo.

Aquela certeza…

18 Outubro 2017

…de que os teus braços é o mais perto do céu que eu alguma vez conhecerei.

Hoje…

9 Outubro 2017

…podia ser um dia como qualquer outro, mas não é. Hoje é um dia diferente. Não que a rotina seja outra, se bem que não tenho dias iguais, mas hoje é distinto. É como se o calcanhar assentasse de vez no chão e sentisse as raízes a nascer até aos antípodas. Não foi algo que se tivesse passado, mas foi como que o culminar de uma manta de retalhos a que tantas vezes chamo alma. Como se sentisse unir todos os momentos da minha vida e neles determinasse tanto do que quero fazer e do mar onde quero navegar. A todos os níveis. Hoje foi como se o mundo tivesse parado por alguns segundos e todos os meus sentidos se tivesse conjugado com a minha vontade. É tão importante a forma como conseguimos usar o que temos de mais preciso: o tempo e há momentos que podem fazer toda a diferença e se essa diferença poder ser feita na vida de outros não há melhor paz que essa.

Melhor…

8 Outubro 2017

…não creio que seja possível.